1. Bruto × líquido

O salário bruto é o valor total anunciado antes de qualquer desconto. O salário líquido é o que efetivamente cai na sua conta. É comum descobrir só depois de contratado que o valor na mão é 15-20% menor que o anunciado — isso não é enganação, é a lei, mas raramente alguém explica com clareza.

2. Os descontos obrigatórios

INSS: contribuição para a Previdência, com alíquotas progressivas de 7,5% a 14% (com teto em torno de R$ 1.090/mês). Não é opcional.

Imposto de Renda: imposto federal progressivo por faixa — isento até ~R$ 2.112, e alíquotas de 7,5% a 27,5% conforme a renda sobe. "Progressivo" significa que você paga a alíquota só sobre a fatia que entra em cada faixa, não sobre o salário inteiro.

Contribuição sindical: geralmente R$ 50-150/mês, teoricamente opcional (você pode se desfiliar), mas muitas empresas descontam automaticamente.

Outros: faltas (1 dia ≈ 1/22 do salário mensal), adiantamentos e empréstimo consignado (parcela combinada com a instituição).

3. Como calcular seu líquido

Exemplo completo — salário bruto de R$ 5.000
INSS (14%): R$ 700 → saldo R$ 4.300
IR progressivo: ~R$ 340 → saldo R$ 3.960
Contribuição sindical: R$ 80
Salário líquido: R$ 3.880 (22% a menos que o bruto)
BrutoINSSIRLíquido% do bruto
R$ 2.000R$ 150R$ 0R$ 1.85092,5%
R$ 4.000R$ 480R$ 248R$ 3.27281,8%
R$ 5.000R$ 700R$ 340R$ 3.96079,2%
R$ 10.000R$ 1.090R$ 1.247R$ 7.66376,6%

4. Dependentes: como reduzir o IR

Cada dependente declarado (filho, cônjuge, etc.) reduz a base de cálculo do IR em cerca de R$ 189/mês. Com dois dependentes, um IR de R$ 340/mês pode zerar completamente — uma economia de mais de R$ 4.000 por ano. Basta pedir ao RH para incluir os dependentes na folha, com a documentação (certidão de nascimento ou casamento).

5. Outras deduções permitidas

Contribuição a fundo de pensão (PGBL/VGBL): sai direto do bruto antes do cálculo do IR, reduzindo o imposto e construindo aposentadoria ao mesmo tempo.

Educação de dependentes: dedutível até um limite (~R$ 400/mês por dependente).

Despesas médicas e contribuições sindicais: entram principalmente na declaração anual de IR (DIRPF), não no desconto mensal.

6. Benefícios que não pagam imposto

Vale refeição, vale transporte e plano de saúde pago pela empresa costumam ser isentos de IR e INSS. Isso muda a matemática de uma negociação: R$ 500 em vale refeição valem mais na prática do que R$ 500 de aumento de salário bruto, que sofreria desconto de 15-27,5%.

7. Cenários especiais

13º salário: sofre os mesmos descontos de INSS e IR — na prática, você recebe cerca de 75-80% do valor cheio.

Bônus e comissões: também descontam normalmente, então um bônus de R$ 2.000 pode virar ~R$ 1.450 líquidos.

Férias: você recebe 120% do salário (30 dias + 1/3 constitucional), com desconto proporcional ao valor bruto recebido.

Calcule seu salário líquido exato

Informe seu bruto, dependentes e outros descontos — a calculadora aplica as tabelas de INSS e IRRF vigentes em 2026.

Abrir calculadora de salário líquido

8. Armadilhas comuns

Aceitar proposta sem calcular o líquido: sempre pergunte se o valor é bruto ou líquido antes de comparar ofertas.

Comparar ofertas ignorando benefícios: R$ 5.000 + vale refeição de R$ 500 costuma valer mais que R$ 5.500 sem benefício algum.

Não atualizar dependentes: deixar de declarar um filho recém-nascido significa pagar IR a mais desnecessariamente.

Pedir consignado sem recalcular o orçamento: a parcela desconta do líquido, não do bruto — confira se realmente cabe.

9. Como negociar melhor

Fale sempre em valores líquidos ao negociar ("quero R$ 4.500 líquido", não "quero R$ 6.000 bruto"). Se a empresa não pode aumentar o bruto, peça benefícios isentos (vale refeição, transporte, plano de saúde) — eles chegam inteiros até você. E lembre-se: para ganhar R$ 1.400 a mais líquidos, muitas vezes é preciso negociar cerca de R$ 2.000 a mais de bruto, porque os descontos comem parte do caminho.